sábado, 15 de julho de 2017

Sedentarismo e a Inatividade Física: qual o impacto na saúde?

Tradicionalmente, os conceitos de sedentarismo e inatividade física são tidos como sinónimos, sendo aceite que ambos representam a mesma face de uma moeda. Nada mais longe da verdade. Por estranho que possa parecer, uma pessoa pode ser considerada ativa e ao mesmo tempo sedentária. Por exemplo, um indivíduo pode cumprir as recomendações da Organização Mundial de Saúde para a atividade física, e passar grande parte do seu dia em comportamentos sedentários. Mas que implicações tem estes conceitos para a saúde das pessoas?




Ser-se fisicamente ativo implica a realização de 30 minutos por dia de atividade física moderada ou 75 minutos por semana de atividade vigorosa. A inatividade física é apontada pela Organização Mundial de Saúde como um preditor de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, alguns tipos de cancro e mortalidade, assim como de pior qualidade de vida. Por exemplo, em 2008 cerca de 9% da morte prematura que ocorreu em todo o mundo foi provocada pela inatividade física. Em Portugal estima-se que a inatividade física seja responsável por 8,4% das doenças cardíacas, por 10,5% da diabetes tipo 2, por 14,2% do cancro da mama e por 15,1% do cancro do cólon ocorridos.



Por outro lado, o sedentarismo é definido por um gasto mínimo de energia um pouco superior ao repouso (cerca de 150%). Por exemplo, um individuo pode ter um comportamento sedentário por estar sentado a ver televisão, jogar videojogos ou andar de carro. Este comportamento sedentário é um fator de risco de pior saúde e de morte prematura. A investigação científica demonstra que as pessoas que passam mais de 10 horas diárias sentadas apresentam um risco de mortalidade 34% superior, comparando com as pessoas que passam apenas 1 hora por dia sentadas.





Porém, o impacto negativo do sedentarismo na saúde das pessoas pode ser diminuído perante a realização de atividade física. Ou seja, é possível algumas pessoas terem um desgaste diário reduzido e ainda assim realizarem alguma atividade física. Um estudo efetuado com 55 mil adultos demonstrou que mesmo quando estes não atingem as recomendações mínimas de atividade física, correr 5 a 10 minutos por dia a uma velocidade lenta (9,5 km/h) reduz em 30% a mortalidade e em 45% as doenças cardiovasculares, para além de aumentar 3 anos na esperança de vida. Para as pessoas muito ocupadas, que se desculpam com o pouco tempo disponível para o exercício, será muito mais fácil encaixar 5 a 10 minutos na rotina diária do que os 30 minutos recomendados.
Num ano em que se realizam os Jogos Olímpicos, em que os atletas de elite irão competir sob o olhar de muitos espetadores insuficientemente ativos ou sedentários, temos mais uma ótima oportunidade para alertar para os benefícios do desporto e da atividade física na saúde, contribuindo para uma sociedade mais ativa e saudável.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O futebol de rua, a criatividade e os treinos de formação



Hoje em dia fala-se muito na falta das brincadeiras na rua ou no “campo do bairro” e como isso prejudica a imaginação dos jovens futebolistas. Que o treinador tem que trazer o futebol de rua para o treino e que deve dar liberdade aos seus jogadores para “darem asas” à sua imaginação.





Eu concordo plenamente com esta linha de pensamento. Não só agora, mas desde sempre. O que acredito acima de tudo é que os treinadores não devem desvirtuar o jogo durante o treino, em cada exercício o futebol (o jogo) deve estar presente e nunca ir contra a sua essência.
Muitos treinadores de formação tentam implementar um tipo de jogo de posse, em que privilegiam o passe curto, poucos toques na bola e que tem como objetivo chegar ao golo de forma segura e organizada. Para isso fazem muitos exercícios com limites de toques (3, 2 e às vezes até 1), muitos jogadores de equipas seniores não tem capacidade técnico-tática para fazer um exercício destes com qualidade, um jogador benjamim ou infantil vai ter? Muitas vezes obriga-os a fazer movimentações e posições corporais pouco ortodoxas e que nada têm a ver com o jogo, 3 toques muitas vezes é o que necessitam para receber uma bola com qualidade. Tira-lhes criatividade porque não podem fazer um drible, ou receber orientado e levantar a cabeça para fazer um passe de rutura. Mas fundamentalmente, tira-lhes a possibilidade de cumprirem o princípio da progressão, tendo espaço para a baliza não podem progredir para o golo porque têm uma limitação de toques. Faz sentido?

Outro tipo de exercício que vejo muito frequentemente é a obrigatoriedade de variação do centro de jogo, onde a equipa precisa de ir a um apoio lateral e ao outro antes de ir para a baliza. Mais uma vez estamos a limitar a criatividade dos jogadores, que não podem ganhar a bola e fazer rapidamente um remate ou descobrir um último passe, muitas vezes ganham bola na posição central e em vez de irem para a baliza como seria espetável têm que ir aos apoios.

Este tipo de exercícios limita a criatividade dos jogadores e cria-lhes hábitos muito difíceis de tirar mais tarde e que deturpam a sua interpretação do jogo. O objetivo é que os nossos jogadores percebam o jogo e tomem uma boa decisão em função do que está a acontecer naquele momento. Têm que ter o poder de escolha como no jogo, e quanto mais escolhas mais próximo do jogo estaremos.

Uma forma de contornar a situação dos apoios seria duplicar ou triplicar a pontuação sempre que haja golo depois de uma variação do centro de jogo. Existe a escolha, eu posso ir para a baliza e marcar logo ou variar o jogo. Inicialmente vão haver menos variações, mas eles vão percebendo que lhes trás vantagem e o objetivo do treinador vai aparecendo aos poucos.
Quanto ao limite de toques parece-me que só será boa opção se for para limitar um apoio ou joker, quando queremos que joguem de forma mais rápida e diminuam a condução com bola; criar inferioridade numérica e aumentar por exemplo os apoios por fora permite-nos essa dinâmica. Os exercícios serão muito mais apelativos para os jovens e haverá mais magia no treino!


Horst Wein tem um artigo bastante interessante sobre este assunto chamado “How to Develop Creative Players”. Neste artigo ele apresenta-nos algumas dicas de como poderemos tornar os nossos jogadores mais criativos e algumas razões para eles terem cada vez menos essa capacidade. Sumariamente:





  • “Declarar guerra ao 11vs11” – Segundo Wein o jogo a 11 não permite aos jogadores jovens intervir vezes suficientes para utilizarem a sua criatividade e fazerem coisas diferentes; 

  • “Deixar os jogadores jogar sem correção constante” – A correção constante aumenta a pressão sobre os jogadores, devem jogar o jogo pelo jogo e não sempre com objetivos impostos pelo treinador;

  • “Insistir que todos os jogadores jogam em todas as posições e em espaço reduzido” – Cada posição tem funções e relações diferentes com os colegas e com as zonas do campo, os jogadores devem passar pelas experiências mais variadas possíveis;

  • “Lembrar que apenas os que se divertem conseguem ser criativos” – a imposição de objetivos e padrões de comportamento produz conhecimento rígido que bloqueia a liberdade de pensamentos e movimentos;

  • “Deixar os jogadores criar os seus próprios jogos e regras” – durante uma pequena parte do treino dar aos jogadores um tempo para inventarem um jogo ou fazerem o jogo que gostam mais, aumenta a sua imaginação, o seu sentido de responsabilidade e a sua capacidade de iniciativa;

  • “Desafiar os jogadores a correr riscos e melhorar sem temer consequências” – jogadores jovens dos 7 aos 12 anos não devem pressionados para passar a bola, devem ter permissão para “estar apaixonados pela bola” para melhorar a sua relação com a bola e tomarem riscos sem temer consequências.

Como criar um modelo de jogo consistente?



Quem gosta de ser treinador de futebol e tem o constante desejo de melhorar deve para além da aprendizagem através dos livros, dos estágios, entre outras formas de aprendizagem, deve também ver muitos jogos de futebol como treinador e não como um simples espetador, já que esta é uma das melhores formas de percecionar novas tendências evolutivas do jogo e assim escolher uma ideia ou aperfeiçoar uma ideia de jogo favorita ou que corresponda às características dos jogadores que orienta.

Por isso, e para começar a falar do tema que questiono no título, quando nós observamos um conjunto de jogos de equipas treinadas por Guardiola, Jorge Jesus ou Lopetegui por exemplo, verificamos que de jogo para jogo, os princípios que sustentam a sua ideia de jogo nos diferentes momentos (atacar, defender, transitar) mantêm-se consistentes e os jogos “fluem” sem grandes oscilações de rendimento de acordo com esses princípios.




Então como chegar a esses modelos consistentes? Porque é que alguns treinadores chegam a esses modelos consistentes e outros não? O que é realmente um modelo de jogo consistente?
Em primeiro lugar, é fundamental uma apresentação teórica e de uma forma simplista das grandes ideias da tua forma de jogar a atacar, defender e nos momentos de perda e recuperação da bola. O uso de frases, vídeos de equipas-modelo, esquemas, etc. parece-me uma excelente forma dos jogadores entenderem aquilo que se pretende para a forma de jogar.
Em segundo lugar, o treinador deve construir um processo de treino planeado para chegares ao tal modelo de jogo consistente. Como construir? Quais os passos?


1- Operacionalização (treinos/exercícios) inicial com incidência total na tua forma de jogar, e nas fases do jogo em que o treinador dá mais importância no seu modelo de jogo, com o objetivo claro de os atletas tomarem consciência e posteriormente um hábito adquirido (subconsciência) dos comportamentos coletivos e individuais da sua equipa. É óbvio que este processo pode demorar semanas ou meses ou pode mesmo não acontecer;

2- Depois de consolidares a tua forma de jogar e os teus jogadores subconscientemente praticarem aquilo que se quer, o treinador deve tirá-los da “zona de conforto” que é a sua forma habitual de jogar e provocar dificuldade, complexidade aumentada, variabilidade na operacionalização. Como? Provocar no treino aquilo que as equipas adversárias vão tentar fazer para derrotar o nosso modelo vitorioso/consistente e provocar no treino a grande imprevisibilidade que o jogo pode ter dentro da previsibilidade que se quer que seja a tua forma de jogar;






Depois, existe um fator que será talvez o mais importante na construção de modelos consistentes que é o facto de a ideia do treinador só ser bem-sucedida se treinada e se criar emoções positivas nos jogadores, isto é, os jogadores têm de acreditar naquilo que fazem para a aprendizagem acontecer, o comportamento tornar-se um hábito consciente e depois subconsciente. Eu escrevo à direita porque me habituei a escrever com essa mão e fui bem sucedido e tive a minha mãe a motivar-me, se eu começar a escrever à esquerda, habituar-me e se me derem um feedback ainda mais positivo e motivador do que a minha mãe me dava eu começo a acreditar que escrevo melhor à esquerda. Portanto é preciso crença, aceitação e sucesso na ideia de jogo do treinador.




Como treinador considero estes os passos essenciais para a construção de um modelo de jogo consistente que normalmente não acontecem na grande maioria das equipas porque o problema está na operacionalização referida acima e na dificuldade em criar uma relação treinador-atleta positiva e emocional. Essencialmente, os treinadores “dão passos maiores que a perna” na operacionalização inicial, não consolidando comportamentos ora porque são pressionados com resultados ora porque se pressionam a si próprios e aos seus jogadores por quererem jogar o seu “jogar” em 1-2 treinos ou 1-2 semanas. Se a direção do Barcelona fosse “resultadista” e se Pep Guardiola não continuasse crente e fizesse acreditar aos seus jogadores que era possível chegar ao suposto tiki-taka não teríamos chegado ao melhor futebol de todos os tempos (a minha opinião) e teríamos Guardiola despedido à 4ª ou 5ª jornada.

Para finalizar o que são realmente modelos de jogo consistentes? Na minha opinião são aqueles que ganham mais jogos mas principalmente são aqueles que em momentos cruciais de uma época estão preparados a todos os níveis, seguindo uma ideia de jogo clara e adaptando-se constantemente às dificuldades que o adversário lhes poderá colocar. Um exemplo que vos posso dar é o de Pep Guardiola no Bayern que é apenas o treinador mais titulado do mundo na última década e que revolucionou o jogo. Será que a sua equipa estava preparada para a eliminatória da Liga dos Campeões em que o Bayern foi eliminado pelo Real Madrid de forma categórica nas meias-finais em 2013/2014 (vitória do Real 1-0 em casa e vitória 4-0 fora)? Na minha opinião não porque o Bayern tinha uma forma de jogar bastante consolidada (operacionalização em função da sua ideia) mas depois não promoveu contextos de treino que adaptassem essa forma de jogar aquilo que seria o Real Madrid nesses jogos. Nesse dia, e sendo Pep Guardiola um treinador tão perfecionista, ele percebeu que o seu modelo de jogo não era totalmente consistente. 
 
E daí falarmos em modelos inacabados, em constante evolução!




quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Não planear é planear para falhar

Nesta publicação decidi falar um pouco da nossa experiência na formação, como planeamos a nossa época em termos de conteúdos. No nosso escalão estabelecemos um método de trabalho comum às 3 equipas. Elaboramos um plano de conteúdos, tendo em conta as 5 vertentes (psicológica, física, social, técnica e tática), que têm que ser abordados durante o ano. Um pouco como a planificação de conteúdos que um professor tem que fazer no início do ano numa escola.

Este planeamento é feito de acordo com a idade, o nível de competência que os atletas têm e o nível que queremos que tenham no final da época. E serve como um documento orientador de todo o nosso trabalho.







Neste documento estão conteúdos teóricos do futebol que podem ser encontrados em qualquer livro. Mas mais importante que isso, estão os princípios e a nossa ideia de jogo, aquilo que pretendemos para as nossas equipas. Apesar de os exercícios variarem entre treinadores os princípios metodológicos são semelhantes e partilham todos uma ideia comum.

Até aqui tudo bem, provavelmente é ou deveria ser um procedimento habitual em todos os clubes de formação. Mas eu gostava de frisar porque é que deveria e qual a sua importância.

Este pequeno documento se bem aplicado permite que todas as equipas que o utilizam tenham uma identidade semelhante e cria uma cultura de clube. A integração dos atletas que vêm de uma equipa para outra dentro do clube é muito mais fácil. Temos a certeza que abordamos todos os conteúdos importantes para a formação integral dos nossos atletas e reparamos e corrigimos erros que, de outra forma, se não estivéssemos a dissecar os conteúdos nunca teríamos detetado e corrigido.





É, sem dúvida, uma ferramenta muito importante, que deve ser completada e dividida em mesociclos pelo treinador. Quanto mais aprofundado for, mais útil será, mais preparados estarão os jogadores e mais completo será o trabalho do treinador.

Mas será este tipo de planeamento apenas útil para a formação? Na minha opinião não. Para mim um treinador é um psicólogo, é um líder, um preparador físico, um gestor, é uma junção de muitas outras coisas, mas acima de tudo é um professor.




Todo o treinador, tal como na formação, tem uma variedade de conteúdos e princípios da sua ideia de jogo que precisa de ensinar aos seus jogadores. Precisa de hierarquizar esses conteúdos e de os distribuir cronologicamente ao longo da época, dos mais importantes (ou mais urgentes) para os menos porque tem que pôr a equipa a ganhar o mais rápido possível.






Para mim o erro de muitos treinadores de equipas seniores é descartarem-se do seu papel de professor, como se os seus jogadores por terem vinte e poucos, trinta e mesmo trinta e muitos não tivessem nada para aprender. Muitos destes jogadores dão erros simples, nos princípios mais básicos que existem que nunca foram corrigidos e que decidem jogos. E mesmo um jogador completo, com uma boa formação precisa de entender e apreender a visão do jogo do treinador para jogar em sintonia com os seus colegas.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Jogos reduzidos e o controlo da intensidade de treino

Atualmente as metodologias de treino desportivo, principalmente os desportos coletivos como o futebol valorizam muito mais a interação das dimensões técnica, tática, física e psicológica na construção dos exercícios de treino em detrimento do desenvolvimento separado de cada uma das dimensões, pelo que por exemplo, neste momento as equipas não desenvolvem a dimensão física descontextualizada da especificidade do jogo, isto é, cada vez menos existem treinos físicos de corrida, de circuitos ou treinos na praia ou no jardim da cidade.
 



É precisamente sobre o controlo da dimensão física, que temos e devemos ter sempre em conta, que irei escrever. Como varia a intensidade nos jogos condicionados ou jogos reduzidos quando manipulamos variáveis como o espaço, o número de atletas, o feedback ou as condicionantes do exercício? A base do controlo da dimensão física são os indicadores da intensidade tais como a frequência cardíaca, o lactato, a perceção subjetiva de esforço (Escala de Borg), o tipo de movimento (andar, correr, sprint), sendo através destes que avaliamos a intensidade dos jogos reduzidos.

Alguns estudos têm obtido alguns resultados importantes e interessantes sobre este tema.



Olhando à manipulação da variável espaço, o que devemos analisar será o que acontece aos indicadores fisiológicos quando mantemos o mesmo número de jogadores e aumentamos as dimensões do exercício, ou quando a relação espaço/jogador é aumentada. Segundo um estudo de revisão publicado em 2011 no Journal of Sports Medicine, a maioria dos estudos desenvolvidos indica um aumento da frequência cardíaca, do lactato e da perceção subjetiva de esforço com o aumento do espaço. Por exemplo, um estudo interessante realizado por Rampinini e colaboradores (2007) verificaram que tanto num exercício de 3x3 como 6x6, aumentando o espaço em 20%, a frequência cardíaca e a concentração de lactato apresentou valores superiores no espaço de dimensões superiores comparativamente com o espaço de dimensões médias e reduzidas. 

O nº de jogadores tem sido também uma das variáveis mais estudadas que podem influenciar a intensidade do exercício de treino. Os principais estudos parecem revelar valores superiores nos indicadores que determinam a intensidade quando o nº de jogadores diminui. No entanto, este aumento nos indicadores de intensidade com a diminuição do nº jogadores parece estar dependente do espaço de jogo, isto é, existem determinadas dimensões do exercício que vão ao encontro da redução da intensidade com o aumento do nº jogadores envolvidos e existem outras dimensões em que não existem evidências significativas na redução da intensidade. Dando um exemplo de um estudo realizado por Owen e colaboradores (2004), concluíram que houve uma redução mais evidente da frequência cardíaca de uma situação 2x2 para uma de 3x3 e para 4x4 num espaço de 25x20 metros, comparativamente com 2x2 para 3x3 em 20x15 metros e 3x3 para 4x4 em 30x25 metros onde as reduções na frequência cardíaca não foram significativas.

A interação das variáveis tempo e espaço, onde o aumento do espaço é proporcional ao aumento do nº jogadores, mantendo-se desta forma a área relativa por jogador, parece indicar-nos uma diminuição da intensidade com o aumento do espaço e nº de jogadores. Por exemplo, Hill-Haas e colaboradores (2009) estudaram a intensidade dos jogos reduzidos com variação do número de jogadores (2x2; 4x4; 6x6) mas mantendo a relação espaço de jogo/jogador, concluindo que a intensidade do exercício é tanto maior quanto menor o nº de jogadores, como foi verificado nos principais indicadores de intensidade, a % da frequência cardíaca máxima, os valores do lactato ou a perceção subjetiva de esforço dos jogadores. 


 


Outras variáveis que têm sido amplamente estudadas para avaliar a intensidade dos jogos reduzidos são o feedback do treinador durante os exercícios e as condicionantes colocadas no próprio exercício. Analisando o feedback, numerosos estudos indicam-nos que uma atitude ativa do treinador sobre os jogadores, incentivando-os e dando informações contribui para um aumento da intensidade do treino. Um dos estudos que demonstra o referido é o de Rampinini e colaboradores (2007) que analisaram diversas situações de jogo (3x3, 4x4, 5x5, 6x6) com presença de feedback ou sem presença de feedback do treinador e em todas as situações de jogo os indicadores de intensidade (% Frequência Cardíaca Máxima, Lactato, Perceção subjetiva de esforço) foram superiores com a presença de feedback do treinador. Quanto às condicionantes colocadas no exercício que podem influenciar a intensidade, uma das mais estudadas é a presença ou não de GR, isto é exercícios apenas de manutenção de posse de bola ou exercícios com balizas e GR, e os estudos realizados são algo contraditórios, no entanto parece haver uma ligeira tendência para um aumento da intensidade do exercício sem a presença do alvo (baliza) e do GR.
Concluindo, estes dados são muito interessantes, no entanto é necessário referir que os estudos sobre este tema têm procedimentos metodológicos muito diferenciados o que origina alguma variabilidade nos resultados levando por isso a conclusões diferenciadas. O que podemos destacar? 


1 – Aumento da intensidade com feedback do treinador; 


2 – Aumento do espaço e número em simultâneo contribui para um decréscimo da intensidade; 


3 – Aumento do espaço mantendo o nº de atletas resulta num aumento da intensidade do exercício.


Mais do que tudo isto dito que penso ter todo o interesse, a pergunta que faço é a seguinte: É possível treinar resistência, força, velocidade no futebol através de exercícios específicos e contextualizados como os jogos reduzidos? A minha resposta é claramente positiva, desde que controlem criteriosamente a intensidade destes exercícios através dos indicadores referidos acima, para que percebam quais os exercícios que devem ser utilizados tendo em conta o objetivo físico da sessão de treino.




Zona Pressionante, Pressing Alto e o Desgaste Físico e Mental

A defesa à zona é uma forma de organização defensiva onde o condicionamento espaço-temporal na zona e nas zonas próximas da bola, a coordenação entre companheiros de equipa e o controlo dos espaços mais afastados da bola e do adversário são princípios chave deste tipo de organização defensiva.
 
Embora os princípios que sustentam este tipo de organização defensiva se mantenham inalteráveis, existem diferentes manifestações da defesa à zona em jogo, que diferem essencialmente ao nível do ritmo, da localização e da intenção. 
 
A grande evolução nesta forma de organização defensiva à zona deu-se ao nível do ritmo e da intenção, onde aos princípios gerais falados anteriormente introduziram o conceito de pressing, onde o aumento da velocidade de encurtamento de espaços sobre o portador da bola e zonas próximas, bem como uma atitude mais ativa na recuperação da bola foram os grandes pontos de evolução. Isto é confirmado nas palavras de Valdano (2002) quando afirma que a defesa à zona passiva, de espera pelo erro adversário, foi dando lugar a uma zona agressiva com uma atitude mais ativa e mais pressionante sobre portador da bola e as zonas mais importantes, que alguns autores denominaram de Zona Pressionante.
 
É nesta forma de manifestação de defesa à zona que eu queria esclarecer alguns possíveis equívocos. 

Zona pressionante não é pressing alto, já que a zona pressionante pode acontecer em qualquer parte do terreno de jogo, depende apenas das ideias e princípios de organização defensiva do treinador para a sua equipa, nomeadamente na localização das zonas de pressing para recuperar a posse de bola. O pressing alto é defender com o objetivo de recuperar a posse de bola o mais próximo possível da baliza do adversário e imediatamente após a perda da posse de bola, podendo ser manifestado defendendo à zona ou individualmente. Portanto, na defesa à zona pressionante, o pressing alto tem a ver com a criação de superioridade numérica na zona da bola, com o aumento da velocidade de deslocamento para diminuir espaço e tempo ao portador da bola e com a clara intenção de recuperar a bola no 1º terço do campo do adversário (setor defensivo) e imediatamente após a perda da bola. Um bom exemplo desta forma de defender foi o Barcelona quando Guardiola era o treinador, ou o Porto de André Vilas Boas ou José Mourinho.



Outra noção errada, está relacionada com a defesa à zona pressionante em pressing alto criar maior desgaste do ponto de vista físico. Dou a resposta com perguntas: Qual das equipas corre mais, se após todas as perdas de bola, uma delas recua no terreno e estabelece zonas e momentos de pressão no ½ campo defensivo, e a outra pelo contrário procura recuperar a bola na zona onde perdeu? Quem vai estar mais longe da baliza adversária quando recuperar a bola e percorrer maiores distâncias para finalizar? 


Parece-me claro que a zona pressionante em pressing alto se for eficaz (recuperação da bola), a equipa não realizará tantos deslocamentos porque a zona/setor da perda da bola é a mesma da zona/setor da recuperação da bola e por isso estaremos a jogar em 20-30 metros, logo a economia de esforço será maior. No entanto, o maior ou menor desgaste físico está relacionado sempre com a forma como gerimos os momentos de jogo. Imaginemos que a minha equipa faz zona pressionante em pressing alto, mas que após a recuperação da bola não a consegue manter mais que 5-10 segundos, será que conseguirá manter a mesma eficácia defensiva ao longo do jogo? Impossível. Era a mesma coisa que um velocista fazer uma prova de 100 metros a cada minuto e fazer o mesmo tempo em cada uma das provas. 
Quero dizer com isto, que é fundamental adaptar o momento de atacar ao momento de defender e vice-versa. A zona pressionante em pressing alto exige alta intensidade, velocidades de deslocamento elevadas dos jogadores com durações curtas, pelo que do ponto de vista fisiológico, é impossível repetir com eficácia sem haver recuperação. Neste sentido, o ataque organizado, a manutenção da posse de bola vai potenciar essa recuperação e consequentemente o momento em que voltamos a defender. 
 
Para finalizar, se o desgaste físico da zona pressionante em pressing alto, ou zona pressing alta, é menos evidente que outros tipos de organização defensiva, já não podemos falar de igual modo no desgaste mental. 
 
Digo isto, porque para além da intensidade relacionada com o desgaste energético, existe a intensidade relacionada com a concentração, e a complexidade de uma defesa organizada à zona é muito maior que uma defesa individual, e se associarmos à defesa à zona o pressing alto de uma forma coletiva essa exigência de concentração ainda é maior, tudo porque tem de haver grande coordenação entre jogadores da mesma equipa, e no momento adequado de pressionar, todos os jogadores tem de agir com rapidez em concordância com um objetivo comum, a recuperação da posse de bola.





Pontos-Chave
 
Zona pressionante é uma forma de organização defensiva que mantém as linhas orientadoras da defesa à zona, aumentando apenas a agressividade sobre as zonas próximas da bola, através do aumento da velocidade/ritmo de encurtamento de espaços.
 
A zona pressionante não é a mesma coisa que pressing alto.
 
A eficácia da zona pressionante com pressing alto é menos desgastante fisicamente mas mais desgastante mentalmente.

Primeiro Passo para o Sucesso

Já nos tinham pedido há um tempo, e desta vez decidimos falar um pouco do planeamento do nosso trabalho na formação. Começamos pela iniciação, uma das fases mais importantes, na minha opinião, que pode facilitar todo o trabalho que se desenvolve mais para a frente.
 
Temos várias etapas, os treinos têm que ser divertidos e bastante diferentes nestas idades, mas queremos que os nossos atletas vão progredindo ao longo do ano, por isso focamos os treinos numa determinada etapa.
 

As Etapas de Progressão são:

1. Eu-corpo – Foco essencial na coordenação individual, os atletas aprendem a correr, a saltar, têm que aprender por vários padrões motores. É uma fase em que a bola tem que estar presente, como todas, mas que devemos dar mais importância à relação do atleta com o próprio corpo do que com a bola;

2. Eu-bola – Foco especial na relação do nosso atleta com a bola, muitos exercícios de repetição, o método Coerver é uma boa base de orientação. É uma fase em que os miúdos têm uma capacidade de aprendizagem muito apurada e que aprendem os vários skills muito rapidamente;



3. Eu-bola-objetivo – Nesta fase, quando a relação dos miúdos com a bola já começa a melhorar temos de dar-lhe um objetivo (passar por uma baliza com a bola controlada, marcar golo na baliza, mandar um cone abaixo, etc.);



4. Eu-bola-adversário-objetivo – A fase em que se dá mais ênfase ao 1x1, muitos duelos individuais, em que começam a desenvolver a cobertura da bola, os dribles sobre o adversário, sempre com um objetivo;
 


5. Eu-bola-adversário-colega-objetivo – Nesta fase queremos que o atleta desenvolva a capacidade de perceber qual a melhor altura para fazer a jogada individual, driblar e ir para a baliza ou passar ao colega, começamos a tentar melhorar a visão periférica.

Estas fases são apenas orientadoras, são uma forma de se progredir nos treinos ao longo do ano. São objetivos do treino, para se dar um foco especial, mas volto a sublinhar, não nos podemos cingir apenas a estes objetivos, o treino tem que ser sempre variado. E o jogo deve estar presente, como uma forma de estímulo e de diversão.

 
Orientações Metodológicas

Nesta altura existem algumas orientações que devemos ter sempre em atenção:

-Nº reduzido de jogadores;

-Exercícios em espaços amplos;

-Bolas e balizas adequadas ao seu tamanho; 

- Falar sempre de acordo com linguagem que conhecem, é aconselhado o uso de metáforas, começar a ensinar alguma da linguagem específica;

- Nº reduzido de atletas por treinador;

-Muita repetição;

-Muitos jogos lúdicos (adaptar jogos que conheçam);


-Progressão do jogo a 1 para o jogo a 3;
 
-Não esquecer de exercitar as mãos, nesta fase podemos estar treinar tanto jogadores de campo como guarda-redes. Além disso estamos a treinar crianças que precisam de se desenvolver fisicamente. Experienciar vários padrões motores diferentes;
 
-Devemos nesta fase inicial começar a ensinar já alguns princípios de jogo específicos (Progressão, Contenção) e os princípios gerais (Campo Grande e Campo Pequeno).
 
Operacionalização
 
Nesta fase decidimos destacar quatro tipos de exercício que devemos utilizar:
 
-Coordenação com e sem bola (Coerver é uma boa solução)
 
· Arcos, escadas, jogos lúdicos (futebol sem bola, espelhos, macaca, etc.);
 
-Jogos de perseguição
· Apanhada com e sem bola, jogos de 2x1 e 1x0 com um defesa em perseguição, etc.
 
-Jogos posicionais
 
· Este tipo de jogos são bastante úteis para ensinar os nossos atletas a se dispor em campo. Poderemos mapear os campos, utilizar quadrados, etc. e utilizar várias condicionantes para que comecem a perceber o posicionamento que desejamos.
 
-Exercícios por vagas
 
· Estes exercícios são bastante dinâmicos, o exercício é praticamente contínuo. Ajuda-nos a aumentar a intensidade dos nossos atletas, eles percebem que têm que estar constantemente em movimento, à procura da bola, tanto a atacar como a defender.